A
TESE DA EFICIENCIA DO MERCADO
Por Manuel A. P. Miranda
Pois é. A vida é
mesmo cruel. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Até
parece que o mundo vai vir abaixo. Os líderes representativos
da poderosa e orgulhosa “corporate America” não conseguem
justificar nem explicar o que aconteceu. O fato incontestável
é que a tese de que o mercado não precisa de regulamentação
nem de controles governamentais hoje não encontra tantos
defensores. Até vacas sagradas como a tese de que o mercado
é eficiente estão sob ataque. Segundo está
hipótese os preços dos ativos financeiros (ações,
debêntures, imóveis) levam em conta e refletem toda
a informação conhecida e disponível.
Defensores dessa teoria acreditam
que ninguém conseguiria manipular o mercado. Mais, a hipótese
da eficiência do mercado afirma que é impossível
alguém ter melhores resultados do que o mercado de uma forma
consistente, através do uso de qualquer informação
que o mercado já conhece, a não ser por só
e tão somente por sorte. Mas se assim é, então
como explicar que de repente vários ativos ficaram sem poder
estabelecer seus preços.
A crise que estamos vivendo
é uma crise de confiança. Os mercados se tornaram
opacos. E sem transparência ninguém consegue estipular
quanto vale ou não vale um ativo. Essa falta de transparência
pode ser vista com clareza no mercado de derivativos que transacionam
trilhões de dólares não ter regras claras e
de aplicação geral e obrigatória. Isto acontece
inclusive no Brasil. Como afirma Celso Boin Junior, chefe de análise
da Link Investimentos, “os negócios com derivativos foram
uma quebra de paradigmas no mercado de capitais, eles mostraram
que a partir de agora a análise das empresas precisa ser
feita de outra forma, sem contar que trouxe insegurança aos
investidores."
Ao contrário do que
muitos pensam, também no Brasil temos problemas de transparência,
como ficou claro quando os grandes bancos brasileiros não
usaram o dinheiro do compulsório para comprar as carteiras
de empréstimos dos chamados pequenos e médios bancos,
preferindo depositar de volta o dinheiro no Banco Central lastreando-os
com títulos públicos.
O que acontece é o seguinte.
Quando os investidores precisam de caixa por enfrentar problemas
de liquidez, eles vendem os ativos que os compradores ainda querem
comprar, não aqueles ativos que os investidores gostariam
de vender. Isto explica uma parte das saídas de recursos
das bolsas de valores dos países emergentes. Estas perderam
mais da metade de seu valor neste ano. Enquanto isso os títulos
governamentais (bônus) desses mesmos países estão
pagando mais de oito pontos percentuais acima do que é pago
pelos Treasury bônus do governo Americano. Já os papéis
usados para financiar aquisições do tipo management
buy-outs estão sendo negociados por 70 por cento de seu valor
de face.
O gráfico a seguir da
uma boa idéia do problema.

As perspectivas de uma recessão
profunda estão pondo um ponto final no chamado “commodities
Bull market.”
Para complicar mais a situação
de acordo com State Street Global Markets, os investidores Americanos
que detêm mais de $5 trilhões em ações
de empresas estrangeiras, estão repatriando seu dinheiro.
A razão é simples, Wall Street apesar de tido um desempenho
ruim nos últimos meses perdeu menos do que as bolsas dos
países emergentes. Números da AMG Data Services mostram
que os chamados international mutual funds tiveram saques da ordem
de $31 bilhões no terceiro trimestre, enquanto isso American-based
funds tiveram um ingresso de novos recursos da ordem de $28 bilhões.
Isto explica a subida do dólar a nível mundial.
Infelizmente, além das
muitas coisas que já deram errado este ano, novo problemas
parecem inevitáveis. Os bancos dos países desenvolvidos
deverão ter novas perdas nos países em desenvolvimento
principalmente os bancos europeus. A exposição em
países em desenvolvimento destes é muito maior do
que a dos bancos americanos. Em termos globais os empréstimos
dos bancos europeus para os países em desenvolvimento são
sete vezes maiores do que o número dos bancos americanos.
Se considerarmos apenas o leste da Europa, o comprometimento dos
bancos europeus na região é 25 vezes maior do que
a dos bancos americanos.
Temos também a derrocada
do chamado “structured-debt market.” A cada nova companhia que entra
em falência, esta causa um efeito cascata num conjunto de
produtos derivativos ditos complexos. Isto leva a queda vertiginosa
do preço de títulos do tipo collateralised-debt obligations
(CDOs). Por fim, o Banco da Inglaterra, reviu para cima suas estimativas
das perdas globais do sistema financeiro chegando ao numero de $
2.8 trilhões. |