A
CRISE DA SUBPRIME
Por Manuel A. P. Miranda
Vivemos numa aldeia global.
Todo mundo sabe de tudo nesta era da cibernética. E ao mesmo
tempo. A cobertura dos eventos é online e real time. Isso
tudo acelera e multiplica o pânico. Quando alguém liga
seu aparelho de TV, assiste o repórter da Rede Globo falando
diretamente de Nova Iorque sobre a crise da sub-prime. Esse cidadão
brasileiro coça a cabeça e se pergunta: o que é
que é a tal da sub-prime?
A crise da sub-prime foi o
nome dado pela imprensa mundial aquilo que na realidade deveria
ser chamado de crise envolvendo os financiamentos imobiliários
concedidos pelo sistema financeiro Americano para clientes com histórico
de crédito duvidoso. A origem dessa crise deve ser buscada,
em primeiro lugar, na taxa de juros extremamente baixa praticada
desde o início deste século pelo Federal Reserve que
é o Banco Central dos Estados Unidos. Essa crise está
também relacionada com o processo de desregulamentação
do sistema financeiro americano que levou a criação
daquilo que se chama de Shadow Banking System. O movimento de desregulamentação
que começou durante o governo de Ronald Reagan implicou na
criação de um poderoso sistema de instituições
financeiras que não se submetiam as normas do Federal Reserve.
Importante, também, para a propagação e intensificação
da crise de caráter mundial foi o lançamento de novos
produtos financeiros nomeadamente os chamados contratos de derivativos,
a globalização do sistema financeiro e a liberalização
das transações financeiras internacionais.
Precisamos recuar no tempo
para podermos ter um melhor entendimento do que está por
trás da crise no setor de credito “suprime” nos EUA. É
uma história fascinante como veremos a seguir.
A crise das Savings
& Loans
Até aos anos 80, o setor
bancário nos EUA era muito regulado e fragmentado. A lei
proibia um banco de ter agências em mais do que um estado.
Além disso, havia fortes restrições aos juros
pagos nos depósitos à vista. Isto permitia a sobrevivência
de pequenas instituições bancárias, as chamadas
“Savings and Loans” (S&L), de carácter local e sobretudo
rural, com depósitos das pessoas na comunidade e empréstimos
para habitação. No início dos anos 80, dois
choques puseram as S&L à beira da falência. Primeiro,
porque os seus empréstimos eram a longo prazo e a taxas nominais
fixas (por exemplo, 5% a 30 anos), quando a inflação
inesperadamente subiu acima dos 10%, os prejuízos acumularam-se.
Segundo, com a desregulamentação do sector bancário,
as S&L deixaram de conseguir atrair depósitos, pois não
tinham a rede de balcões e serviços dos grandes bancos,
e não conseguiam competir com os juros que se pagavam nos
depósitos. Entraram na bancarrota.
Começa a processo
de titularização (securitization)
Para evitar os distúrbios
que estas falências trariam, sobretudo nos meios rurais, o
departamento do Tesouro Americano interveio fechando as S&L
e assumindo os seus créditos. Porque o governo não
tem vocação para gerir empréstimos, queria
vender estes ativos no sistema financeiro, mas como o volume era
tão grande na faixa de $400 bilhões não se
achava comprador para tudo. A solução foi ‘titularizar'
estes ativos. Já existia um mercado em que os bancos combinavam
esses empréstimos em pacotes e os vendiam e compravam a qualquer
hora, como qualquer outro título. Por exemplo, imagine que
você pede um empréstimo imobiliário na Caixa
Econômica Federal. Se a Caixa Econômica Federal já
tem muitos empréstimos do mesmo tipo, e quer diversificar
este risco, vai a este mercado onde o vende, por exemplo, ao Bradesco.
A Caixa Econômica Federal continua a assumir a gestão
do empréstimo e a cobrança da dívida, mas as
receitas passam a ir para o Bradesco, assim como o risco de inadimplência.
Ajudado pelo impulso inicial dos ativos S&L, este mercado expandiu-se
e tornou-se num sucesso, permitindo aos bancos diversificar as suas
carteiras de empréstimos.
O sucesso da titularização
abriu o mercado “suprime”
Esta possibilidade de diversificação
do risco permitiu uma expansão do crédito nos anos
90. Tornou-se possível conceder empréstimos a grupos
de maior risco. Imagine, por exemplo, um casal jovem e promissor
que anda entre empregos e quer comprar a primeira casa, ou uma família
de meia-idade que faz uma hipoteca para financiar a montagem de
um negócio. Os contratos de empréstimo eram freqüentemente
do tipo 2/28, com uma taxa baixa nos primeiros dois anos em que
era necessária a liquidez, e uma taxa bem maior nos 28 seguintes
para compensar o risco.
Estes empréstimos não são tresloucados, mas
são com certeza arriscados, pois os jovens podem nunca conseguir
emprego, e a empresa pode ir à falência. Por isso,
as agências de ‘rating' deram-lhes no mercado uma classificação
abaixo de A-prime, daí o nome ‘subprime'. O mercado cresceu
e hoje inclui cerca de 10% dos empréstimos para a habitação
nos EUA.
Ai veio a crise
Nos últimos meses, chegaram
más noticias a esse mercado. Embora já se esperasse
que as taxas inadimplência fossem altas (5% ou 6%), elas acabaram
por serem maiores do que se esperava (10% ou 15%). O valor dos títulos
caiu, e, dois fundos gigantes de investimentos imobiliários
da Bear Sterns praticamente faliram no final de Junho. Parcialmente
em segredo (as carteiras de títulos são confidenciais),
muitas instituições financeiras tentaram vender os
seus títulos ‘subprime' para limitar as perdas levando a
uma queda acentuada no seu valor desde meados de Julho. Os bancos
tiveram de aumentar as suas reservas de curto prazo para fazer face
ao novo risco, indo ao mercado no qual os bancos centrais fixam
a taxa de juro. Isto levou a um rápido aumento da procura
no mercado das reservas nos últimos dias, pondo pressão
numa subida na taxa de juro. Para manter a taxa fixa no valor de
referência, os bancos centrais tiveram de imprimir dinheiro
para aumentar a oferta, ou seja, “injetar dinheiro”. Porque estas
operações são públicas, os investidores
receberam a notícia de que os bancos estavam mais expostos
ao mercado ‘subprime' do que se pensava. Logo, o valor das ações
dos bancos veio abaixo.
E agora!?
Estamos falando de somente
1% dos devedores no mercado da habitação americano
em inadimplência. Já o efeito nas ações
dos bancos é obviamente negativo, porque fizeram um mau negócio
no ‘subprime', mas não há mal nenhum nos bancos perderem
dinheiro de vez em quando como qualquer outra empresa. O verdadeiro
perigo é que os bancos estejam em pior estado do que aquele
que descobrimos nos últimos meses aprofundando uma crise
financeira. Os bancos centrais estão vigilantes, porém,
suas ações continuam insuficientes para debelar a
crise de confiança que afeta o sistema financeiro mundial.
E as taxas de juro? As crises financeiras têm, normalmente,
efeitos imprevisíveis e perigosos. O cenário atual
é de incerteza e desconfiança generalizada nas instituições
financeiras principalmente as pequenas e médias. Gerando
o fenômeno de empoçamento de liquidez. Os bancos centrais
em todos os países estão ampliando suas funções
de emprestadores de último recurso e ao mesmo tempo reduzindo
as taxas básicas de juros. Porém. na ponta dos tomadores
a taxa de juros está cada vez mais alta. No caso do Brasil,
um carro usado modelo 2002 era financiado ate o início de
Setembro em 60 meses e uma prestação de R$ 510. Hoje
a prestação é de R$ 775. O que representa um
custo adicional de juros de mais de
R$ 16 mil.
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