Os
órfãos do crédito
Roberto Luis Troster (sócio da Integral Trust)
Há uma crise de crédito
em gestação que pode transformar a atual desaceleração
da economia brasileira numa recessão demorada. A dinâmica
do setor financeiro já estava se desgastando desde os primeiros
meses deste ano e agravou-se com a mudança do cenário
internacional. Nas últimas semanas, alguns sintomas da crescente
deterioração são cada vez mais evidentes: férias
coletivas, fechamento de lojas de consignado, postergação
de investimentos, queda brusca nas vendas, adiamento de empreendimentos,
boatos sobre a saúde de bancos etc. Se deixada por si só,
continuará a piorar. É imperativo reverter essa situação
rapidamente.
Há quatro fatores que
se sobrepõem pressionando para uma ruptura da dinâmica
do crédito:
i. o esgotamento da política econômica, ii. o aperto
de liquidez, iii. o comportamento peculiar de algumas instituições
e iv. a crise externa.
i. A economia brasileira já
vinha apresentando uma desaceleração e expectativas
declinantes; a política de dependência da demanda e
do preço das commodities e a falta de reformas mostrava sinais
de fadiga. Era esperado um crescimento menor este ano que no anterior
e as projeções para 2009 eram mais baixas ainda. Com
expectativas de atividade menor, há um arrefecimento no crédito.
ii. O sistema financeiro brasileiro
estava sofrendo um aperto de liquidez promovido pelo Banco Central
do Brasil com a política de encaixes. Ilustrando o ponto,
o total dos compulsórios em janeiro de 2008 eram de R$ 203
bilhões e oito meses depois totalizavam R$ 272 bilhões,
um aumento de 33,5%! Subiram de 10,7% de M4 (total dos meios de
pagamentos ampliados) para 12,6%. Um despautério. Apesar
de serem os mais altos do mundo, foram elevados mais ainda. Com
a escassez começou um processo de empoçamento de liquidez
e a conduta peculiar de alguns bancos.
iii. Aproveitando a falta de
liquidez houve um abuso de poder de mercado, por poucos, segurando
a oferta e aumentando o preço de crédito numa desproporção
com a mudança do ambiente econômico. Ilustrando o ponto,
o crédito para pessoa física está crescendo
a uma taxa inferior aos juros cobrados, sequer está havendo
uma rolagem do estoque; a situação está tão
dramática que o saldo para valores até R$ 5 mil caiu
em valores nominais em setembro. O comportamento com as taxas é
predatório e contribui para o agravamento da situação.
A taxa média do cheque especial subiu 32,1% este ano atingindo
170,2%; o spread (margem de lucro) nessa modalidade é 988,3%
superior à taxa de captação e 279,3% mais elevada
que ao do crédito pessoal, apesar da inadimplência
e o nível de garantias serem praticamente o mesmo.
O aperto das condições
de crédito de forma tão brusca torna insolventes empresas
e pessoas que não o seriam sem a mudança abrupta na
oferta de financiamento. É um comportamento predatório
e imediatista. Há muito discurso sobre ética e meio
ambiente e pouca prática sobre cidadania e sustentabilidade
econômica e social. É importante destacar que é
a ação de poucos e é inconsistente com a tradição
da grande maioria do sistema bancário brasileiro que promove
o desenvolvimento e busca relações duradouras com
seus clientes, apoiando-os em momentos de dificuldades como o atual.
iv. Os acontecimentos no mercado
financeiro internacional ocorreram num momento em que o a situação
no mercado de crédito interno já estava intrincada,
tornando-a crítica. As dificuldades de acesso a recursos
externos e a parada quase total do mercado de capitais, por um lado
restringiram a oferta de recursos e por outro aumentaram a demanda
de grandes empresas que tinham fontes de financiamento internacionais
e se voltaram para o crédito nacional. Houve um agravamento
do quadro.
Corre-se o risco de uma crise
do crédito. A última foi em 1995, a relação
crédito/PIB era de 36,8% em janeiro daquele ano. Despencou
por conta de uma política bancária equivocada e causou
uma onda de falências e concordatas. Enquanto que a queda
foi rápida, a recuperação foi demorada e só
em julho deste ano (2008), treze anos e meio depois, alcançou
o mesmo patamar. A estrutura de financiamentos está fragilizada
e necessita de medidas para evitar que o pior aconteça.
Nas últimas semanas,
o governo reagiu: reduziu os compulsórios, aprimorou o redesconto,
incentivou a atuação do FGC – Fundo Garantidor de
Crédito, pressionou os bancos grandes a repassar recursos
aos menores, regulamentou operações emergenciais para
bancos públicos, prorrogou o prazo de impostos, criou linhas
de crédito direcionadas e irrigou as linhas externas. Destaca-se
a preocupação do Banco Central com o tema, entretanto,
são medidas que visam resolver alguns dos sintomas, em especial
dos bancos médios, o que é correto, mas criam outros,
como uma estatização maior dos financiamentos e não
atacam de forma contundente o problema principal que é fortalecer
a oferta de crédito para toda a sociedade. Os problemas de
curto prazo de bancos, montadoras e de grandes exportadores estão
encaminhados, falta agora resolver as dificuldades do resto, os
órfãos de crédito.
A situação demanda
uma política de crédito adequada à gravidade
do momento: a) eliminar a estrutura esdrúxula de compulsórios,
a única explicação para sua existência
é a apropriação de recursos baratos para financiar
a dívida do governo federal (leia-se mais um imposto indireto);
b) acabar com os impostos sobre o crédito, está se
tributando quem não tem (por isso toma emprestado); e c)
penalizar abusos de poder de mercado. Com essas três medidas
haveria a garantia de liquidez abundante no futuro, uma oferta competitiva
de financiamentos e taxas ajustadas ao risco incentivando uma retomada
da oferta de crédito.
Falta ao país uma política
de crédito abrangente abordando o quadro institucional, financiamentos
setoriais, estrutura de mercado, regras concorrenciais, papeis do
banco central e demais agentes públicos e privados, educação
financeira, microcrédito, etc. As vantagens de ter uma agenda
são consideráveis e o custo de não ter uma
são altos. Apesar da importância, não há
uma. O sistema bancário brasileiro é sólido,
sofisticado e competitivo. O fato de ser mais fechado que o de outros
países o torna menos vulnerável à crise exterior
e lhe dá autonomia para ter uma dinâmica independente.
Pode ser um freio na economia ou um fator importante para ajudar
no crescimento, parte do problema ou da solução. É
uma questão de honra e de gestão.
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